Segunda-feira, 13 de Março de 2006

Entrevista exclusiva a José Mourinho!

A eliminação aos pés do Barcelona, a reacção dos jogadores do Chelsea, o apoio ao Benfica na Liga dos Campeões, pela voz de um treinador que recebeu mais uma grande distinção no futebol


RECORD - Acabou de ser distinguido mais uma vez como melhor treinador do mundo. Isto significa o quê? Ainda maior responsabilidade?


JOSÉ MOURINHO - Em primeiro lugar, é uma honra imensa ser distinguido com um prémio como este. Há quem não tenha ganho um único prémio de melhor treinador, e eu jávou no segundo consecutivo. Tive essa sorte e estou contente por isso. Acho que é um prémio com uma enorme credibilidade, porque assenta fundamentalmente na estatística e não apenas na opinião das pessoas. É com dados concretos que a IFFHS [Federação Internacional de História e Estatística do Futebol] escolhe os melhores de cada ano.


RECORD - E isso significa?


JOSÉ MOURINHO - Significa muito. Diz respeito ao trabalho que tem vindo a ser feito no Chelsea. Dos primeiros 100 jogos feitos no Chelsea, ganhámos quase 80 por cento e perdemos apenas 10 por cento. Mas desses 10 por cento, a maioria das nossas derrotas aconteceram em jogos sem grande expressão. Percebe o que eu digo? Perdemos com o FC Porto, mas foi na fase de grupos da Liga dos Campeões e já estávamos apurados, perdemos com o Bétis na mesma situação, perdemos com o Bayern e com o Barcelona, na época passada, mas passámos a eliminatória.


RECORD - 2005 foi mesmo um ano muito bom?

JOSÉ MOURINHO - O prémio diz unicamente ao que foi feito durante o ano de 2005. Ganhei um campeonato, uma taça inglesa, fui às meias-finais da Liga dos Campeões. Claro que fico contente por tudo isto, mas sou ambicioso e quero ganhar cada vez mais. Por isso é que digo que não me sinto o melhor treinador do mundo. Fui assim considerado atendendo a circunstâncias muito especiais, como foram estas vitórias do Chelsea. Referiu-se a um ano fantástico, como foi o do Chelsea. Mas sabe sempre bem ouvir que somos os melhores do mundo. É mais um troféu para eu não esquecer, porque é sempre marcante.


RECORD - Gostou da reacção da equipa no jogo com o Tottenham, dias depois da eliminação do Chelsea da Liga dos Campeões?

JOSÉ MOURINHO - Claro que gostei, e a forma efusiva como os jogadores festejaram o segundo golo tem muito significado para mim. Ganhámos 2-1 mas, se tivéssemos empatado, não ia dizer aos jogadores que não tinha ficado contente. O que diria era que o adversário tem uma excelente equipa e aceitava o empate como resultado justo. Quem viu o jogo sabe do que estou a falar. Foi um bom jogo de futebol. Nos últimos 5 ou 10 minutos fizemos uma grande pressão, que foi recompensada com um golo a acabar. Podíamos ter resolvido o jogo antes. Ganhei, fiquei contente, mas fica-me aquele sentimento de injustiça em relação ao adversário. Fazer o jogo que eles fizeram e sair de Stamford Bridge sem um ponto, imagino como estejam a sentir-se. Um empate não me desagradava. Espero que eles consigam o seu objectivo, que é a qualificação para a Liga dos Campeões.


RECORD - Mas foi bom para recuperar os jogadores, depois do jogo com o Barcelona, ou não?

JOSÉ MOURINHO - Antes do jogo já tinha dito que não achava que era o jogo ideal. Depois de ser eliminado da Liga dos Campeões, preferia ter de defrontar um adversário mais fácil para devolver moral àequipa. Houve qualidade, conseguimos ganhar, mas não criticaria ninguém se tivéssemos empatado. A equipa mostrou grande qualidade e um enorme sentido de responsabilidade. No fim eles fizeram uma grande festa, mas isso foi sópelo jogo. Foi um festejo simbólico, frente a um público fantástico como o nosso. Depois da forma como nos receberam no aeroporto à chegada de Barcelona, entrámos em campo e os nossos adeptos não se cansaram de nos apoiar. Nem um assobio ouvimos, e era natural que eles estivessem desiludidos, porque certamente queriam ver a equipa continuar na Liga dos Campeões. A relação de respeito manteve-se. Aliás, é quase uma relação de adoração entre os adeptos e os jogadores. É uma maneira diferente de ver e estar no futebol, que só quem lá está é que percebe.


RECORD - Falta cada vez menos para voltar a festejar de novo um título inglês?

JOSÉ MOURINHO - ? e temos a perfeita noção disso. Vamos continuar virados para esse objectivo, sabendo que nos faltam agora 15 pontos, que podem ser menos, caso os nossos adversários directos, como o Manchester United, escorregam. Vamos conseguir os pontos necessários, sejam 15, ou 12, ou outros quaisquer, mais cedo ou mais tarde.


RECORD - Pode é não ser no dia 9 de Abril, com o West Ham.

JOSÉ MOURINHO - Se não for no dia 9, há-se ser noutro dia qualquer. É só porque nessa data jogamos no nosso estádio, e seria uma festa bonita, festejar durante um jogo nosso. Se for noutro jogo qualquer, também não me vou chatear. Já fui campeão em casa, pelo FC Porto, já fui campeão no hotel, também com o FC Porto, já fui campeão a jogar fora de casa, como aconteceu no ano passado com o Chelsea. Jáme aconteceu quase de tudo. Gostava agora de ser campeão em casa.


RECORD - Pelas suas declarações, custou muito ser eliminado pelo Barcelona. Foi por ter vontade de ir mais longe na Liga dos Campeões ou mais pela forma como aconteceu a eliminação?

JOSÉ MOURINHO - É óbvio que gostava de ter continuado em prova, porque era um dos nossos objectivos. Mas prefiro responder de outra maneira. Digeri a eliminação com muito menos sofrimento do que se podia pensar. Não sou parvo, conheço o futebol e as diversas competições. Por um lado, fomos eliminados por uma excelente equipa, e é melhor que aconteça assim do que frente a equipa sem quaisquer aspirações. Neste tipo de jogos entre grandes clubes, são detalhes que decidem, e muito quiseram desvirtuar isso, aproveitando a nossa eliminação com outros fins?


RECORD - Quer ser mais específico?

JOSÉ MOURINHO - Basta olhar com clareza para a forma como decorreram os dois jogos. O Chelsea-Barcelona foi disputado ao mais alto nível, mas o facto de termos jogado 60 com 10 jogadores é um dos detalhes que fazem muito a diferença. Em dois anos, jogámos 4 vezes com o Barcelona, e só sofremos golos ou perdemos jogos a jogar com 10. E isso é significativo, e é para isso que algumas pessoas não querem olhar. No ano passado estávamos a ganhar 1-0, depois o Drogba foi expulso e perdemos 2-1. O segundo jogo em casa ganhámos. Este ano, estava 0-0 no jogo em casa e só perdemos quando ficámos a jogar com 10. No segundo jogo, 11 contra 11, empatámos.


RECORD - Visto dessa forma?

JOSÉ MOURINHO - Em 52 jogos em casa perdemos apenas 1. Não quero tirar mérito a uma grande equipa como é o Barcelona, mas há alguns entendidos que querem desvirtuar a verdade e transformá-la em outra coisa qualquer, quando os dados concretos são estes que acabei de apresentar. Não foi em Barcelona que fomos eliminados. Quem perde em casa 2-1 com o Barcelona muito dificilmente consegue recuperar.

«Chelsea ainda precisa de crescer como instituição»


RECORD Acha que no próximo ano o Chelsea terá condições para ganhar a Liga dos Campeões? Teve esse objectivo dois anos seguidos mas não chegou sequer à final?

JOSÉ MOURINHO A esperança existe sempre, mas o Chelsea ainda tem de crescer enquanto clube. Não se senta sequer no G-14, não tem voz nos centros de decisão, e a sua influência junto dos organismos disciplinares europeus também não existe. O clube cresceu pelo poder financeiro do seu dono, e pelas pessoas que lá trabalham, de funcionários a técnicos, passando por jogadores e outro pessoal de apoio. Tem cimentado uma posição de força em Inglaterra, mas ainda precisa de crescer como instituição.

«Benfica não tem missão impossível»


RECORD - O Chelsea foi eliminado pelo Barcelona, na conferência de imprensa disse que apoiava o Benfica e, dias depois, aparece o Barcelona no caminho do Benfica. Não acha isto no mínimo curioso?
MOURINHO - Eu disse que apoiava o Benfica pelo meu sentimento de português. Gostava que o Benfica fosse campeão europeu, porque é a única equipa portuguesa na prova e não por ser benfiquista. Àmedida que vou estando mais tempo fora de Portugal, acentua-se o meu sentimento pelo país e seus clubes.

RECORD - Teve um sabor especial para si o Benfica ter eliminado o Liverpool, por se tratar de um rival do Chelsea?

MOURINHO - Nada disso. Gostei que o Benfica ganhasse ao Man. United, como gostei que tivesse ganho ao Liverpool. O importante é que está apurado.

RECORD - Dias antes do jogo da primeira mão, disse que a tarefa do Benfica seria difícil, mas que acreditava na qualificação. Acabou por acontecer isso. E agora com o Barcelona? O Chelsea acabou de ser eliminado por este adversário.
MOURINHO - Volto a dizer o mesmo que lhe tinha dito na altura. No futebol há missões que são difíceis, às vezes muito difíceis, mas não há missões impossíveis. Por isso posso dizer que o Benfica não tem missão impossível. O Barcelona tem uma excelente equipa, eliminou o Chelsea por detalhes, mas não é imbatível. Ainda no ano passado os eliminámos.

RECORD - Vai torcer ainda mais pelo Benfica, para "vingar" a eliminação do Chelsea?

MOURINHO - Não, nem pensar. Vou ficar a torcer pela vitória do Benfica, como disse, e não pela derrota do Barcelona. Nesta fase da prova, estaria do lado do Benfica qualquer que fosse o adversário que lhes tivesse calhado. O Barcelona faz parte do meu passado, como adjunto, porque passei lá muitos momentos bons, e como treinador principal, porque joguei duas eliminatórias e ganhei uma delas. Por isso, não estou contra o Barcelona. A nossa eliminação já faz parte do passado. Há que olhar em frente e pensar nos próximos objectivos.

Fonte: Record
Autor: MIGUEL PEDRO VIEIRA
publicado por Admin às 19:33
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